8.9.08

Sucumbi reloaded

A partir de hoje, o Coletivo existe* no endereço:

www.dentrodocoletivo.blogspot.com

* Principalmente graças ao apoio providencial do nosso matemático e programador de plantão, Andrei.


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11:34 AM




13.8.08

Infausta solução

Estelita estava mais desamparada do que no dia em que sua mãe morreu. Foi assim que estacara naquela encruzilhada. Por trás do esquecimento dos quatro grandes montes, se ouviu o grito rouco do seu pai quando dera pela sua falta. Estelita havia corrido descalça, com a roupa do corpo, em busca de um amor desatinado demais para se realizar. Quando chegou à praça, ouviu as botas dos homens do seu pai já bem perto. Não valia mais a pena ir.

Até poderia valer se à sua frente não estivesse Carminha com o seu séqüito de cupinchas armados para caça. Iam atrás da cabrocha que estava de namorico com seu marido. O dito que prometera o mundo para Estelita, e que agora fugia sozinho, deixando mala, Carminha, Estelita, e tudo mais para trás. De uma amiga lhe arrancaram o nome, e também pararam atônitos quando viram a própria vir correndo bem na direção deles. Sob o comando de Carminha, armaram a mira, foi quando Estelita parou.

Estelita ainda quis acreditar que havia uma saída, pela rua lateral, talvez. Isto se lá não estivesse o bando de Felinto que acabara de entrar na cidade disposto repor-se de mantimentos e, na saída, sacudir até o último vintém dos moradores. Pela cara deles, não havia polícia no mundo que pudesse lhes impedir. Muito menos os doze soldados que agora se punham de frente pra eles formando, então, junto com os homens de Carminha e os do pai de Estelita, um quadrilátero cujas principais linhas de tiro se entrecruzavam no ponto em que a cabeça da menina estava.

Um silêncio típico daqueles que antecedem desgraças se esparramou pela praça, e o vento, que açoitava os ouvidos, parou como se prendesse a respiração. Eram quatro e meia da tarde, e quando Robério, o homem mais novo de Felinto, se alvoroçou para dar o primeiro de uma série interminável de disparos, uma pedra do tamanho de um caminhão veio zunindo do céu e, com um estrondo improvável, abriu uma cratera que engolira metade da cidade.


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7:19 PM




16.7.08

Um comentário

Agora compreendo quando algumas pessoas simplesmente param de escrever. Não que tenham percebido que não sabem. Na maioria das vezes, os que tomam uma decisão dessas são exatamente aqueles que se dão bem com as palavras. O fato é que uma rotina corrida não abre tempo para a fruição de idéias. Foi assim que eu me dei conta de que literatura tem que ser um lance que tem que ser vivenciado. Não é pontual como fazer um artigo, ou uma crônica. Seja um romance, um conto, e principalmente poesia, a coisa tem que ficar reverberando na cabeça. Não basta ter uma idéia. Você tem que viver e sentir aquilo que você vai transformar em palavras. E depois tem que decupar cada frase em separado, para só depois encadeá-las e ver se o conjunto está bom. Comigo pelo menos funciona assim. Tinha que ficar atacando a idéia por diferentes lados, procurando um formato que fosse o mínimo criativo, mas que não ficasse "viajoso" ou obscuro demais. Enfim, algo que valesse a pena ser exposto. E como se não bastasse essa falta de tempo para "maturação" de idéias, ainda tem o senso crítico que vai se afunilando a cada dia.


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7:49 PM




19.5.08

No século XIX, Baudelaire, após alguns goles de absinto, vociferava coisas desse tipo:

A partir desse momento, a sociedade imunda precipitou-se, como um único Narciso, para contemplar sua imagem trivial no metal. Uma loucura, um fanatismo extraordinário apoderou-se de todos esses novos adoradores do sol.

Ele falava da Fotografia. E isto porquê ele não conheceu os flogs, o Orkut, Photoshop, celular com câmera, etc, etc..


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6:05 PM




30.3.08

Deixa pra quem sabe

"O poeta é aquele que tira de onde não tem e bota onde não cabe." (Pinto de Monteiro)


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11:39 AM




27.1.08

Descarado

Antes, Janine só o conhecia de vista, vendo-o pela televisão, como quase todo mundo. Deputado não é do tipo de pessoa das mais acessíveis. No dia que ela o viu através do vidro do laboratório, entrando na loja para pegar umas fotos que mandara revelar, não conteve o sobressalto. Aquele rosto respeitável, de representante do povo, não condizia com o do libertino, cujas estripulias estavam bem registradas nas fotos que acabava de pegar. E naturalmente, a mulher que posava com ele entre lençóis ou dentro de banheiras não era a sua esposa oficial. Após pegar as fotos e pagá-las, ele deu uma olhadinha em volta, perscrutando rapidamente os olhos os funcionários por trás do balcão, como quem diz ninguém viu nada, ninguém sabe de nada.

Dali em diante virou hábito. O deputado passara a revelar os retratos dos adultérios sempre naquele laboratório. Pela TV, Janine via aquele homem dando entrevistas bem empostadas, e pouco depois estava lá ele, estampado de quatro e máscara num maço de novas fotos. Tamanho o costume, o deputado começou a criar intimidade com as atendentes da loja. A coisa atingiu tal ponto que o deputado chegou a convidar todos os funcionários da loja para o aniversário de um filho seu, em retribuição aos ótimos serviços prestados ao Estado.

Janine foi meio a contragosto. Só lá teve a certeza de que não deveria ter ido. Sentiu algo parecido com nojo quando reconheceu no salão muitas das que estiveram em fotos com o deputado, agora sentadas naquelas mesas distintas, com caras de princesinhas diante dos fotógrafos e cinegrafistas. Janine bocejava quando o deputado surgiu próximo a sua mesa, em meio a um alvoroço de flashes e holofotes, e cumprimentou cada uma de suas colegas. Ao lhe cumprimentar, deixou um papelzinho em sua mão.

Demorou, mas ele conseguira de novo. Depois da propaganda e do cortejo, foi exatamente como planejara. Alguma daquelas morderia a isca, e foi o que aconteceu. No sábado seguinte, Janine caía na cama daquele motel já bastante conhecido das fotos e, com o indicador adornado com um brilhante, fazia um sinal de negativo para o deputado. Só não revele lá, ok?, disse ela, sem saber que ele já tinha outro lugar em mente.


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3:47 AM




12.1.08

O peso da dádiva

Ninguém conseguia mentir para ela. Nem em casa, nem no colégio, nas brincadeiras, nunca. Até aquela data, ela só ouvira verdades, algo bom se entre elas houvesse sequer uma palavra de carinho, ou de uma consideração maior. Pelo contrário. Ou era o silêncio - acompanhado por um olhar engasgado - ou era a verdade cristalina, fosse qual fosse, e até gostaria de algumas vezes ter ouvido uma mentira, dessas que enfeitam tudo, embora elas nunca viessem. Assim, preferia pensar que, apesar de não expressarem afeição por ela, pelo menos agiam com sinceridade. Mas um dia, alguém lhe disse algo que nunca mais voltaria a ouvir, algo tão sincero e verdadeiro quanto o que todos sempre lhe disseram, com a diferença de que era bem mais do que tudo que esperava ouvir. Foi um “eu te amo”, dito por uma prima de seu pai, Marcela, que havia ido passar uns tempos em sua casa.

Na hora ela não entendeu bem, só achou divertido. Ria das escapadelas, dos encontros às escondidas, dos beijos apressados, até que um dia compreendeu o caráter clandestino daquela relação, e chorou com o medo do futuro. Naquele mês, Marcela deixara de ser uma hóspede para ser a sua maior e grande razão de felicidade.

Na frente dos outros agiam como grandes amigas, dessas de andarem grudadas e dormirem juntas. Mesmo depois de tomadas por ânsias quase convulsas, as duas continuaram fazendo as mesmas coisas de antes, andando juntas, às vezes até de braço dado. Mas tanta naturalidade acabou culminando com o deslize fatal que pôs tudo a perder. Um dia, no meio da feira, as duas se beijaram, um beijo inocente, até meio trivial, quase um mero tocar de lábios, o que não lhes livrou do escândalo.

Na manhã seguinte, enquanto Marcela partia numa carroça para casa de um outro primo, ela se debatia de desespero nos braços do pai. Depois de alguns anos mortificada com a perda, ela sumiria para sempre daquela cidade, e para quase todo mundo ela tinha ido atrás do seu amor de devassidão. Na verdade, nunca se reencontraram. Ela tinha mesmo ido era viver exilada de todos, enclausurada numa vida de distância e silêncio. Só ouvir verdades era algo doloroso demais.


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1:22 AM




18.12.07

Apólice

Nem sei se devias saber
Que ando por aí dizendo
O teu nome, sem querer.

Até te chamo
Sem ter nem pra quê

E te vejo onde ninguém mais vê
E te espero sem ter combinado nada
E nas horas mais inapropriadas
Começo a rir, descontroladamente

Aparentemente, sem motivo
Ou pelo gosto de se sentir vivo
Coisa que eu tinha esquecido
Ou nem lembrava de ter sentido.

Tantas noites, desolado
Foi em vão, e eu sem saber
Que o que era meu estava guardado.


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1:25 PM




23.11.07

O crime

Maria Cristina já levava uma vida normal até o dia em que ficou diante do homem que lhe torturou e lhe estuprou, anos antes. Ela havia se mudado há pouco tempo para aquela rua, e Cecília foi uma das primeiras pessoas com quem conversou. Logo se deram bem, viraram amigas, e na primeira vez que Maria Cristina foi em sua casa, deu de cara com aquele senhor sonolento na poltrona. Era o Ex-tenente Trajano, pai de Cecília.

Em 1974, numa daquelas passeatas frustradas, o exército prendeu 15 estudantes e os conduziu ao batalhão. Lá, separaram os homens das mulheres e aí começou o inferno. Antes dos interrogatórios intermináveis e das sessões de tortura, algumas daquelas moças foram apresentadas à face mais cruel do então Tenente Trajano. Poderia passar mil anos, com todas as rugas que pudesse ter, e todos aqueles cabelos brancos, mas Maria Cristina o reconheceria de qualquer forma. Ainda mais com aquele sinal enorme embaixo do olho, ela não tinha dúvidas quanto a sua identidade.

Cecília explicou que seu pai não era mais o mesmo. Não falava mais e passava a maior parte do tempo sentado naquela poltrona. Um dia, Cristina foi na casa de Cecília lhe entregar umas revistas e encontrou a porta só encostada. Não havia ninguém em casa, a não ser o velho sorumbático na sala. Naquele momento, sentiu o peso daqueles dias. Não era fácil conviver e transitar próximo a pessoa que mais odiara na vida, a pessoa que quase lhe destruira por completo, que lhe impediu de ter filhos, de andar normalmente, sem contar as noites sem sossego e os incontáveis traumas que carregava até hoje. Ao ficar mais uma vez frente a frente com aquele homem, Cristina lembrou como é se sentir completamente suja por dentro e por fora, e quando viu, já tinha fechado todas as janelas e aberto uma das bocas do fogão.

A Polícia concluiu que alguém deve ter esquecido aquela boca aberta e deu o caso por encerrado. Mas foi no velório que Maria Cristina viu que o seu crime não foi perfeito, e quase caiu para trás quando o Ex-tenente Trajano chegou fardado para o último adeus ao seu irmão gêmeo.


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11:47 AM




2.11.07

Quatro andares

Pela segunda vez naquele dia, Angelita acordava após ver o mundo desvanecer-se debaixo dos pés. Voltava a si e via que não estava em casa, pelo jeito era um hospital ou um posto de saúde. Ao seu lado estava Abílio, porteiro do seu prédio e talvez o único homem que lhe amaria na vida. Mas ela jamais chegaria a saber disto, simplesmente porquê que não reparava mais em homem nenhum, e muito menos num tipo como Abílio. Angelita tinha desistido de procurar amores. Seus pretendentes sempre fugiam quando a viam cair se contorcendo, revirando os olhos, e colocando aquela baba pela boca. Naquele dia ela conferia a caixa de correio quando caiu tomada pelas descargas súbitas. Abílio, sem saber o que fazer, chamou a ambulância achando que aquilo fosse um enfarto. Quando chegaram ao posto de saúde, a médica lhe explicou tudo, e os dois voltaram a pé para o prédio, meia hora depois.

A cada quarteirão, Angelita tornava a agradecer com a voz trêmula, em parte pela raiva de si, em parte pelo temor de uma nova crise, pois ela só receberia o ordenado na semana seguinte, e até lá não teria como comprar os remédios pra cabeça. E Abílio ao seu lado só ouvia, confrangido, emocionado, era a primeira vez em três anos que ela lhe dirigia a palavra. Chegaram e, sem se despedirem, cada foi para o seu canto naquele prédio quase deserto. Angelita não sabia, mas era a única moradora do edifício, fora o próprio Abílio, que era só o porteiro, e se aprontava todas as manhãs para vê-la passar pelo saguão quando ia para o trabalho.

Mais tarde, Angelita em sua poltrona pensava mais uma vez se sua vida teria um sabor muito diferente se tivesse alguém para lhe ouvir, ou para rir com ela de algum filme do Jerry Lewis, ou para jogar pedras no laguinho da praça. Mas não, deixa pra lá, não estava mais em tempo para aquilo. Sua vida estava muito boa como estava, tinha sua casa, sua madrinha para visitar aos sábados, e as suas segundas-feiras para esperar. Temia mesmo qualquer coisa que pudesse afetar a organização de suas coisas e horários, isso poderia mudar seus hábitos, idéia intolerável, um horror. E ainda tinha a doença, que lhe fez entender que era uma pessoa defeituosa para a vida, livre da obrigação de ser feliz maritalmente. Enquanto isso, lá na portaria, Abílio via na televisãozinha preto e branco uma novela cheia de eu te amos, e pensava se algum dia, alguém, ou até mesmo Angelita, lhe diria um daqueles, mesmo de brincadeira, mesmo ligeiro, mesmo sem querer muito. Mas não lhe diriam, nunca, quem ele pensa que é para ser amado?, acorda, Abílio, amor é luxo, é coisa de gente que obtura dentes, que vai a rodízio de pizza, ao cinema, que só usa roupa passada e com cheiro de amaciante. Melhor ir colocar o relógio para despertar às quatro e meia pra poder se arrumar a tempo de ver Angelita passar.


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2:07 AM




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