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26.4.05
Possibilidade
Moravam os três numa casa de dois cômodos. A casa era distante de tudo, num estado de fronteiras tão incertas quanto a época das chuvas. Os três subsistiam, viviam por si próprios, em dias que começavam ainda escuros. Ferviam água de barreiros, cavoucavam uma terra teimosa, tomavam leite de uma cabra doente, e a insalubridade daquele viver contrastava com as suas longevidades. Só sentiam os anos passarem à medida que iam perdendo dentes.
E falando em tempo, já estavam ali havia tanto tempo que nem lembravam dos graus de parentesco. Nem se lembravam mais quem era mãe de quem, ou mulher, ou irmão, ou quem viera de passagem. Conversa não havia, e mesmo que houvesse, ninguém ia se preocupar em estar evocando um passado que talvez nem tivesse existido. Nunca houve passado. Só havia um presente, e naquele presente, a presença de ódio mútuo. Parecia inacreditável que três pessoas, tendo apenas a si mesmas num raio de milhares de quilômetros, pudessem se odiar tanto.
Esse passou às 3:23 AM
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