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16.6.05
Solidário e suscetível
Aquilo deveria ter sido apenas uma reunião como tantas outras. Deveria ter sido apenas um comunicado de rotina, mas acabou se transformando numa situação bem extenuante. De repente a mulher lá saiu do tema e emendou uma história que aos poucos foi comprimindo a garganta de Ademar, e lhe marejando os olhos, até que ele não conseguia mais achar posição confortável na poltrona. Ele começou a simular um acesso de gripe para despistar o esfregar dos olhos, mas parou logo com medo de que sua péssima performance denunciasse ainda mais a sua inquietação. Angustiava-se também ao ver que todo mundo à sua volta mantinha-se impassível ante àquele discurso tão tocante. Enfim, não lhe restou mais o que fazer além de erguer-se, pegar suas coisas e sair do auditório da forma mais discreta que podia. Foi pra casa.
Quando chegou, a respiração ainda estava atravancada, aos tropeços. Entrou todo ressabiado, temendo que alguém lhe perguntasse o que tinha acontecido. E que resposta daria?
Ficou evitando tudo que pudesse evocar algo da história que a mulher contava. Nem adiantou. Passou o resto do dia e da noite com a imagem da mulher falando aquelas coisas com tanto sentimento, com tanta verdade e com tanta dor que mal conseguira dormir.
Pela manhã, comemorou no banheiro a notícia que lhe deram ao se levantar: a mãe de um vizinho havia morrido. Pronto, seria perfeito. Poderia juntar tudo: o pesar de hoje com a comoção de ontem, ainda a lhe engasgar. Agora sim, extravasaria tudo de uma vez, num bolo só, e ainda pareceria solidário a dor alheia. Já pensava satisfeito no quanto de lágrimas deixaria rolar a vontade, de qualquer forma a ocasião era oportuna a coisas desse tipo, e se desafogaria até do que já tinha esquecido. "Coitada, coitada...", soluçava enquanto tomava café sob os olhos perplexos da família. "É cada coisa que acontece na vida da pessoa...", e mordia o pão, desconsolado. "Mas ela já tinha 102 anos e vivia por aparelhos!", gritou sua mulher. "Eu sei! Eu sei! Estou falando do filho!", replicou ele, e passou o resto daquele dia morrendo de pena, agora do vizinho.
Esse passou às 3:55 AM
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