20.8.07

A sorte de Mercedes

Depois de matar o marido por quem largara tudo, Mercedes teve a impressão de que o estampido ainda continuou ecoando, e ecoaria para sempre nas fendas daqueles maciços. Aquele eco ficaria impresso na paisagem, como lembrança de um ódio bem destilado, ou de uma vida mal resolvida, o que acabava dando no mesmo.

Corriam os anos da guerra. Numa cidade próxima ao foco da insurreição, o governo reunia suas tropas para o próximo e quem sabe último ataque. Os soldados não conheciam bem o lugar, mas se animavam com a possibilidade de virarem heróis. Todos menos o Cabo Epitácio, que agora estava mais preocupado com a menina que conhecera quando descarregava o armamento.

O ataque ocorreria em uma semana, mas antes disso Epitácio e a sua menina já tinham se entregado aos clamores do amor, decidiram fugir de tudo, do mundo se possível, para longe da guerra e para si mesmos. E assim Epitácio desertou sem uma explicação formal, sumiu dentro da noite baixa, levando apenas a sua menina pela mão. Ela também desertava. Havia sido plantada ali para se inteirar das estratégias do exército, a mando do próprio pai, um dos lideres do movimento, e agora, esquecida da missão, um homem decidia o seu destino pela segunda vez.

Naturalmente acabou não ajudando em nada. O exército do governo sufocara o movimento e a revolta acabou como o planejado. Anos depois eles souberam do fim da guerra. Para Mercedes, saber que o pai pôde ter sido fuzilado não foi nenhum consolo. Nada mais a consolaria de ter posto a própria vida nas mãos de outra pessoa, por duas vezes, e isso era de uma indignidade que lhe tirava o sono. Inquietava a idéia de ser frustrada com uma vida que ela não tinha escolhido. Acabou que numa dessas noites de vertigem, ela confundiu o marido com o pai e lhe meteu um tiro no rosto. No fim foi até bom. A nobreza e a doçura de Epitácio só aumentavam o seu asco por si mesma. Não suportava mais viver com tanto amor.


Esse passou às
3:39 AM

 


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